O Diabo Veste Prada 2
O Diabo veste sua alma
Por vinte anos, O Diabo Veste Prada foi o clássico conto de advertência sobre o preço real do sucesso profissional. Ele contava a história de Andy Sachs, uma jovem que quase perdeu a alma para o mundo da alta-costura, antes de reconquistá-la em um último ato de coragem. Mas e a continuação? Ela toma um caminho radicalmente diferente, e, sinceramente, meio assustador. Ela desmonta silenciosamente tudo o que o primeiro filme defendia, e o faz para celebrar uma vida de materialismo, interesse próprio e relacionamentos baseados puramente em interesse.
O Primeiro Filme: Dizendo Não ao Diabo
No original, Andy começa como uma aspirante a jornalista que basicamente revira os olhos para a indústria da moda. Então, ela é puxada para a órbita da “gélida” Miranda Priestly e, aos poucos, sua vida pessoal começa a desmoronar. Ela perde aniversários, decepciona o pai e, eventualmente, afasta o namorado. As coisas mudam em Paris, onde Andy vê Miranda trair friamente seu leal diretor de arte, Nigel.
A lição era simples: para viver como Miranda, você precisa estar disposto a passar por cima de qualquer um no seu caminho. A história de Andy termina com ela rejeitando esse mundo. Em um momento de desafio, ela joga o celular numa fonte na Place de la Concorde, literalmente se desligando do “diabo”. Ela escolhe a integridade, um emprego comum e as pessoas que ama em vez daquela vida glamorosa pela qual “milhões de garotas matariam”.
A Continuação: Mergulhando no Vazio
A continuação, por outro lado, basicamente detona todo esse desenvolvimento de personagem nos primeiros cinco minutos. Conhecemos uma Andy que está solteira de novo, sem família por perto e cuja identidade se resume à carreira. Quando ela perde o emprego no jornalismo, não volta de cabeça baixa, a contragosto, para a Runway e para Miranda. Não. Ela volta pronta para escalar a hierarquia corporativa.
O primeiro filme deixou claro que a vida obcecada por carreira de Miranda era “vazia” e “triste”. A continuação simplesmente muda as regras do jogo. Em uma cena-chave que ecoa a conversa original dentro do carro, Miranda confessa que ter perdido a infância das filhas “valeu a pena” porque ela “ama trabalhar”. E, numa reviravolta completa em relação à mulher que ela foi no primeiro filme, Andy concorda.
Um Mundo Onde Todo Mundo Usa Todo Mundo
A continuação pinta um retrato bem sombrio das relações humanas, onde cada conexão parece um negócio e nada vai além da superfície.
Andy e Miranda não são mais mentora e protegida relutante. Agora são parceiras que admitem abertamente que se apunhalariam pelas costas no segundo em que um cargo melhor estivesse em jogo. Emily Charlton, antes uma personagem com sonhos genuínos, agora é reduzida a alguém que se casa por dinheiro e passa a perna em Andy para roubar a revista para si.
E logo depois que Emily a trai, Andy está rindo com ela durante um almoço, tratando toda a traição como se não fosse grande coisa, como se trair fosse a coisa mais normal do mundo (o que talvez seja mesmo em Hollywood, e isso vazou para a “moral” do filme).

O Diabo Vence
O maior soco no estômago é como o filme lida com a “oferta do Diabo”. No original, Andy vai embora porque percebe que não queria fazer com mais ninguém o que Miranda fez com Nigel. E o que ela mesma acabou fazendo com Emily. Na continuação, quando Andy descobre que conseguiu fechar um acordo corporativo duvidoso que a beneficia, ela ri da situação e abraça a própria falta de escrúpulos, admitindo que fez tudo para si mesma.
A continuação não termina com uma grande lição de humildade. Ela termina com uma volta olímpica em homenagem ao interesse próprio. Andy é recompensada com um contrato de livro de US$ 350 mil para expor Miranda, um cargo novo e chique, e um lugar à mesa como “igual” de Nigel. A mensagem não poderia ser mais clara: família, amor e honestidade? Não valem nada. O sucesso material é a única coisa que define a felicidade, mesmo que, para isso, você tenha que tocar fogo em todo o resto para continuar na indústria.
Esse final basicamente nos diz que deveríamos estar dispostos a apunhalar uns aos outros pelas costas como ética de trabalho e depois sorrir e ir almoçar juntos. Aparentemente, todos nós deveríamos ser psicopatas transacionais. Isso é uma continuação de O Diabo Veste Prada ou um episódio de Black Mirror?
Enfim, O Diabo Veste Prada 2: a continuação em que a protagonista aceita o pacto com o diabo.
E esse é o final feliz.
