O Poder do Heroismo
O que aprendemos com Tolkien, Game of Thrones e Frieren
George R. R. Martin sempre reconheceu o impacto enorme que J.R.R. Tolkien teve na literatura de fantasia e no jeito como ele mesmo escreve. O Senhor dos Anéis, de Tolkien, é geralmente visto como a base da fantasia moderna. O próprio Martin disse: “Tolkien era a montanha. Ele foi uma influência enorme para mim e para minha geração de escritores. Eu olho para O Senhor dos Anéis e digo: ‘Este é um grande livro, mas há coisas que eu quero fazer de maneira diferente.’ Quero um mundo mais complexo, mais cinzento, onde o bem e o mal não sejam tão facilmente distinguíveis” (Entertainment Weekly, 2011). Apesar de admirar Tolkien, Martin decidiu seguir um caminho bem diferente em As Crônicas de Gelo e Fogo, desconstruindo as convenções que Tolkien ajudou a estabelecer.
Moralidade na Fantasia: O Jeito Claro de Tolkien vs. a Ambiguidade de Martin
O mundo de Tolkien funciona dentro de um esquema moral bem definido. Personagens como Frodo, Aragorn e Gandalf são claramente bons, enquanto Sauron e os orcs representam o mal absoluto. Essa visão se encaixa na ideia de jornada heroica que Joseph Campbell descreve, em que o bem e o mal são forças claramente opostas em uma batalha maior. Já Martin quebra essa lógica. Ele cria um mundo onde os personagens vivem em tons de cinza, sem o preto e branco do bem contra o mal. Como ele mesmo disse: “No momento em que você escreve sobre poder, você está escrevendo sobre o coração humano. Eu olho para O Senhor dos Anéis, e é um livro importante para mim. É um grande livro. Mas não é o livro que eu teria escrito. Eu teria feito Frodo matar Gollum deliberadamente e depois virar o novo Senhor do Escuro. Eu queria mais realismo psicológico” (Sydney Morning Herald, 2013).
No universo de Martin, não existem personagens puramente bons ou maus. Até mesmo figuras nobres como Ned Stark tomam decisões moralmente questionáveis, guiadas por ambição pessoal, sobrevivência, amor ou vingança, e não por uma causa maior ou uma batalha cósmica entre o bem e o mal. Os deuses de Martin também não são figuras benevolentes. Eles são reflexos falhos dos desejos e medos humanos. Em uma entrevista ao The Guardian (2011), ele disse: “Os deuses que criamos são tão falhos e humanos quanto os homens que os inventam.” A visão de mundo dele é marcada por um ‘realismo’ que não acredita na providência divina ou em um propósito maior: o mundo é apenas nós lutando uns contra os outros, sem significado, sem final, sem propósito transcendente.
Mas mesmo Martin admite: “Eu não sei o que acontece quando morremos. Eu não sei se vamos para algum céu ou inferno, ou se reencarnamos, ou se é apenas o apagar das luzes. Mas eu espero que não seja o apagar das luzes. Eu espero que haja alguma coisa.” (Guardian, 2012)
Guerra: Heroísmo vs. os Horrores da Realidade
Tolkien apresenta a guerra como algo épico e heroico. Batalhas como o Abismo de Helm e o Cerco de Minas Tirith mostram coragem, amizade e o triunfo do bem sobre o mal. Martin, por outro lado, retrata a guerra como caótica, brutal e, no fim das contas, sem sentido. Nas histórias dele, o foco está nos horrores da violência, no sofrimento dos inocentes e nas concessões morais que as pessoas fazem para conquistar poder. Mesmo os personagens mais heroicos não escapam: eles morrem, muitas vezes de forma inesperada, e sem nenhuma garantia de justiça ou vitória. As mortes de personagens como Ned Stark e Robb Stark já no início da série quebram a expectativa de que os “mocinhos” vão vencer.
Só que, ao rejeitar o heroísmo tradicional, Martin deixa um vazio. Enquanto as batalhas de Tolkien nos passam esperança e propósito, as histórias de Martin deixam um gosto amargo, sem respostas claras.

O Final Que Nunca Veio
A demora de Martin de terminar As Crônicas de Gelo e Fogo tem frustrado fãs e críticos. Quando a série de TV (Game of Thrones) tentou fechar a história, o público rejeitou o final. Por quê? Porque, mesmo que Martin desconstrua o heroísmo em seus livros, nós, como leitores, ainda procuramos por ele. Isso é natural. Nós somos atraídos por histórias de superação, redenção e sacrifício. É por isso que o livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, continua tão relevante. Procuramos heróis para torcer, e muitos fãs se apegaram a personagens como Daenerys ou Jon Snow. Mas nenhum deles teve um grande momento de vitória; suas histórias ficaram incompletas, e muita gente achou que esses personagens foram injustiçados.
Com a chegada dos White Walkers, a história parecia se encaminhar para um clímax tradicional: uma batalha final que abandonaria as rivalidades entre as casas nobres e uniria os sobreviventes contra um inimigo maior. Esse final poderia ter ecoado os temas de Eclesiastes, onde todas as ambições humanas são vistas como vaidade diante de algo maior. Mas parece que é justamente esse tipo de final — o heroico, onde o bem vence o mal — que Martin não quer escrever.
A Defesa do Heroísmo: Frieren – Além do Fim da Jornada
Mesmo assim, a popularidade da fantasia tradicional prova que o público ainda quer histórias de esperança e heroísmo. Um exemplo recente é o anime Frieren: Além do Fim da Jornada. Baseada no mangá de Kanehito Yamada e Tsukasa Abe, a série se tornou um dos animes mais bem avaliados em plataformas como MyAnimeList, Anilist e Anime News Network. O sucesso mostra que os temas defendidos por Tolkien — heroísmo, amizade e auto-sacrifício — continuam tocando as pessoas.
Frieren começa no final de uma grande aventura, quando um grupo lendário de heróis derrota o Rei Demônio. A história foca em Frieren, uma maga élfica que, diferente de seus companheiros mortais, enxerga o tempo de forma muito diferente. Décadas passam num piscar de olhos para ela, e ela se vê cheia de arrependimento por não ter valorizado seus amigos enquanto estavam vivos. Decidida a honrar a memória deles, Frieren embarca em uma jornada de autodescoberta, revisitando lugares antigos e fazendo novos amigos pelo caminho.
Assim como O Senhor dos Anéis, Frieren abraça a luta entre o bem e o mal, apenas faz isso de uma forma mais introspectiva. Os demônios que Frieren enfrentou representam o mal absoluto, parecidos com os servos de Sauron. A série também explora o preço emocional do heroísmo e a passagem inevitável do tempo, temas que Tolkien também aborda em seus elfos. Ambas as obras mostram que o valor de uma jornada não está só no destino, mas nos laços criados ao longo do caminho.

Diferente do ‘realismo’ sombrio de Martin, Frieren rejeita a ideia de que o heroísmo é ingênuo ou ultrapassado. Seus personagens têm defeitos, mas escolhem ir além dessas falhas para amar, se sacrificar e ajudar os outros. Veja só:
- Frieren é muito inteligente, mas distante e fria.
- Himmel é heróico, mas um pouco vaidoso e não consegue a espada do herói.
- Heiter é bondoso, mas irresponsável (e gosta de beber).
- Eisen é leal e forte, mas tem dificuldade em se abrir emocionalmente.
- Fern é dedicada e decidida, mas muito fechada.
- Stark é corajoso e humilde, mas cheio de dúvidas e inseguranças.
Todos esses personagens são heróis, não porque sejam perfeitos, mas porque escolhem amar, servir e se sacrificar pelos outros. Eles mostram que mesmo pessoas imperfeitas podem ser heroicas.
Por Que o Heroísmo Sempre Vai Importar
Muita gente diz que o mundo moralmente ambíguo de Martin reflete melhor a realidade. Mas será que é mais realista mostrar um mundo sem heroísmo? Sim, o mundo é cheio de corrupção e maldade, mas não para por aí. A visão de Tolkien, enraizada em sua fé, nos lembra de uma verdade maior: existe SIM uma batalha entre o bem e o mal, e o bem já venceu. Na nossa história, temos o maior dos heróis — Jesus Cristo — que nos amou e se sacrificou por nós.
O heroísmo vem de Deus. Ele reflete Seu amor, justiça e sacrifício. É por isso que histórias de heroísmo sempre vão nos inspirar. Mesmo num mundo quebrado, o heroísmo nos aponta para algo maior. Ele nos lembra que há sentido, propósito e esperança.
Vemos isso na vida real. Nunca vou esquecer Heley de Abreu Silva Batista, uma professora que lutou com as próprias mãos para tentar impedir que um homem colocasse fogo em sua escola. Ela salvou várias crianças, mas deu sua vida naquele dia, junto com outras duas funcionárias. Se isso não é heroísmo, o que é?
Histórias como Frieren e O Senhor dos Anéis nos lembram disso: mesmo num mundo difícil, o heroísmo e o sacrifício são possíveis porque refletem o maior dos heróis. Por mais imperfeitos que sejamos, olhamos para Cristo, nosso Salvador, e tentamos ser pequenos heróis, espalhando luz na escuridão.
