Amizade em Extinção!
Como a Sexualização Está Eliminando a Amizade Entre Pessoas do Mesmo Sexo
Vivemos num tempo em que tudo parece ser visto pela lente do desejo. Filmes, séries, animes e até conversas do dia a dia são analisados com uma lupa que busca encontrar romance sexual – o que C.S. Lewis chamava de Eros – mesmo quando o que vemos é apenas carinho, lealdade ou uma conexão profunda entre duas pessoas do mesmo sexo. O resultado? A amizade verdadeira, o amor Philia, está sendo sufocada pela ideia de que toda relação próxima tem que ser, necessariamente, sexual.
De Philia a Eros: Uma Confusão Perigosa
C.S. Lewis, no livro “Os Quatro Amores”, separa claramente o Eros (amor romântico/sexual) da Philia (amizade verdadeira). O Eros tende a ser exclusivo, ciumento e possessivo. Já a Philia é aberta, generosa, baseada na sintonia de alma e no prazer de estar junto.
“… nada é menos parecido com Amizade do que um caso amoroso. Amantes estão, normalmente, face a face, envolvidos com o outro; amigos estão lado a lado, envolvidos com algum interesse comum.”
Mesmo assim, a cultura pop e as redes sociais vêm misturando esses dois tipos de amor. Basta que dois personagens mostrem afeto, cuidado ou profundidade emocional para logo aparecerem palpites sobre um suposto relacionamento sexual entre eles. Às vezes, mesmo quando os personagens não mostram absolutamente nenhum traço nesse sentido. Mas Lewis também já identificou essa tendência 65 anos atrás:
“Não haver evidência positiva de homossexualidade a ser descoberta no comportamento de dois amigos não atrapalha no mínimo os sabe-tudo: “Isso é exatamente o que devemos esperar”, dizem eles em tom grave. A própria falta de evidência é, então, tratada como evidência; a ausência de fumaça prova que o fogo está cuidadosamente oculto.”
Um dos grandes responsáveis por essa confusão é o avanço da erotização na cultura pop e o acesso facilitado à pornografia. Conteúdos sexualizados apresentam o desejo sexual como a principal força motivadora de todas as relações humanas. A pornografia, em particular, cria uma visão distorcida onde toda proximidade física ou emocional leva inevitavelmente ao sexo. O resultado é uma geração que tem dificuldade de conceber vínculos profundos desconectados da sexualidade. Assim, fica difícil enxergar a beleza de uma amizade pura e desinteressada. De que há outras formas de amar e ser amado.
Um exemplo recente é a animação Guerreiras do K-Pop. As três protagonistas são amigas tão próximas que parecem irmãs. Ainda assim, logo surgiram nas redes sociais vários comentários especulando sobre um possível romance ou atração entre as 3 (em todas as combinações de pares – e até em trisal!). O simples fato de elas serem carinhosas e terem uma amizade profunda já foi suficiente para muita gente presumir que existia algo romântico ou sexual ali.

Isso não acontece só na ficção, afeta nossa vida também. Homens e mulheres ficam sem graça de demonstrar carinho por amigos do mesmo sexo, com medo de julgamentos ou insinuações. Um abraço, um elogio, um ombro amigo passaram a ser vistos com desconfiança, como se sempre houvesse uma segunda intenção.
Uma Sociedade Sem Amizades
O que acontece quando a amizade passa a ser vista com desconfiança? A resposta não é nada boa. Sociedades sem amigos são mais solitárias, ansiosas, adoecidas. A Philia, segundo Lewis, é uma das formas mais puras de amor, pois nasce da escolha livre, da admiração mútua e do desejo de compartilhar a vida sem esperar nada em troca.
A ciência confirma isso. Vários estudos mostram que amizades profundas e duradouras estão ligadas a uma melhor saúde mental, longevidade, mais resistência ao estresse e até um sistema imunológico mais forte*. Por outro lado, a solidão tem um efeito devastador, comparável ao de fumar ou obesidade. Segundo um estudo publicado na revista PLOS Medicine**, não ter vínculos sociais fortes aumenta em até 50% o risco de morte precoce.
O Que Diz a Bíblia?
A Bíblia valoriza a amizade como um dos maiores presentes da vida. Exemplos conhecidos são Davi e Jônatas, cuja relação foi marcada por profunda lealdade, carinho e fidelidade, sem qualquer sugestão de Eros (sim, eles eram A-MI-GOS). Jesus, ao chamar seus discípulos de “amigos” (João 15:15), eleva a amizade a algo sagrado. Em Provérbios, lemos: “Em todo tempo ama o amigo, e na angústia nasce o irmão” (Provérbios 17:17).
A amizade, na visão bíblica, é fonte de força, consolo e crescimento espiritual. É a expressão do cuidado mútuo, do apoio incondicional, da alegria de caminhar junto sem precisar de paixão ou desejo físico.
Precisamos urgentemente recuperar a Amizade. Reconhecer que o amor entre amigos é tão importante quanto o amor romântico, e que demonstrações de carinho e lealdade não precisam ser sexualizadas para serem verdadeiras e valiosas. Amizades profundas não são exceção, mas parte essencial da experiência humana.
“Aqueles que não concebem a Amizade como amor substantivo, mas apenas como disfarce ou elaboração do Eros, deixam transparecer que nunca tiveram um Amigo.” _ C.S. Lewis
Então, lute. Não deixe a amizade morrer, não deixe a amizade acabar.
Referências:
*Dunbar, R. I.M. (2025). Why friendship and loneliness affect our health. Ann NY Acad Sci., 1545, 52–65. https://doi.org/10.1111/nyas.15309
**Holt-Lunstad, J., Smith, T. B., & Layton, J. B. (2010). Social relationships and mortality risk: a meta-analytic review. PLOS Medicine, 7(7), e1000316.
Lewis, C.S. Os Quatro Amores. Editora Thomas Nelson Brasil, 2017
