Devoradores de Estrelas
Por que Amamos Rocky?
Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary) começa com um homem acordando sozinho em uma nave espacial. A memória dele está em pedaços. Dois cadáveres lhe fazem companhia. Aos poucos, ele se lembra do próprio nome: Ryland Grace, professor de ciências do ensino fundamental com um doutorado abandonado pelo caminho.
Ele também se lembra de ter sido recrutado para a missão do Projeto Fim do Mundo (Hail Mary, ou seja, a última aposta) e enviado a 11,9 anos-luz da Terra para investigar por que o Sol está morrendo na Via Láctea. Grace precisa descobrir o segredo e mandar a resposta de volta. E não tem combustível para voltar para casa.
A história fica mais estranha e mais bonita quando Grace descobre que não está sozinho. Uma nave alienígena flutua na escuridão com um único sobrevivente a bordo. Rocky é uma criatura parecida com uma rocha, incapaz de falar qualquer língua humana. Mesmo assim, os dois aprendem a se comunicar. Viram parceiros, depois amigos, e por fim algo parecido com irmãos diante da solidão cósmica.
O Herói Relutante
Grace não é nenhum Capitão América. Quando descobre que a missão é uma viagem só de ida, entra em pânico. Heroísmo é coisa para outras pessoas. E, ainda assim, o chamado cai no colo dele. Acaba sedado e colocado na nave. (Um alô pra Jonas!)
A Bíblia está cheia de personagens que reagiram desse mesmo jeito. Moisés, descalço diante da sarça ardente, lista todos os motivos pelos quais é a pessoa errada para o trabalho. Jeremias reclama dizendo que é apenas uma criança.
Jonas é quem mais se parece com Grace. Chamado a Nínive, ele corre na direção oposta, embarca em um navio e tenta dormir no meio da tempestade da própria desobediência. Foi preciso ser engolido nas profundezas para chegar ao lugar onde deveria estar. Grace também é engolido, mas por uma nave no vácuo do espaço, e acorda exatamente onde precisava estar.
O chamado raramente chega quando estamos prontos. A maior parte de nós trabalha das 8 às 17h, lava a louça, cria os filhos e por aí vai. Mesmo nesse cotidiano, somos recrutados para um amor e uma responsabilidade que ninguém pediu. A pergunta que a Bíblia faz é se vamos fugir ou caminhar rumo a Nínive.
Feitos para Amar
O grande mérito de Devoradores de Estrelas é Rocky. Ele não tem rosto. Respira amônia. Se comunica por som e vibração. Tem cinco pernas e nenhum olho.
E a gente o ama.
Em poucos instantes, sentimos a solidão dele, rimos das suas piadas, ficamos com medo quando ele se machuca. Quando Grace dá meia-volta com a nave para salvá-lo, sabemos que é a coisa certa a fazer.
Por quê? O que acontece dentro de nós quando criamos um vínculo com um alienígena fictício que quase nada tem a ver conosco do ponto de vista biológico?
A resposta é simples: fomos feitos à imagem de um Deus que é amor. Carregar essa imagem significa estar conectado, no nível mais profundo, a reconhecer a pessoalidade e responder com afeto. O amor é o veio da madeira da qual fomos esculpidos.
Tire o rosto. Tire a espécie, a língua, o corpo, a história em comum. O que sobra ainda é uma pessoa, e a gente não consegue deixar de amá-la. A parábola do Bom Samaritano funciona pela mesma lógica. Jesus detona a categoria de “próximo” da época e redefine: próximo é quem quer que carregue a Imagem, quem quer que precise de misericórdia, quem quer que você encontre pelo caminho.
Se conseguimos amar Rocky, que desculpa temos para os humanos que custamos a amar? O caixa que a gente ignorou. O parente que a gente cortou. O colega de trabalho cujas opiniões políticas nos deixam revoltados. Todos eles têm rostos e têm histórias. Foram feitos pela mesma mão amorosa. E todos precisam do amor de Jesus.

O Amor Verdadeiro Tem Um Preço
Grace tem a salvação nas mãos. Tem o combustível. A Terra está esperando. E ele dá meia-volta para resgatar um amigo que nem consegue ver o rosto dele.
Essa é a forma de toda grande história. Frodo carregando o Anel. Aslan caminhando até a Mesa de Pedra. Harry entrando calmamente na floresta. A gente se emociona com essas cenas porque elas dizem a verdade sobre o amor.
O amor verdadeiro não fica calculando o retorno. Não ama só quando é amado de volta, nem dá esperando receber. O amor verdadeiro se esvazia. Ele se derrama.
A gente reconhece isso toda vez, em toda história, porque fomos feitos por um Deus que se permitiu pender em uma cruz e disse: “Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem.”
Esse é o “Projeto Fim do Mundo” que Deus lançou, dois mil anos atrás, em uma colina nos arredores de Jerusalém.
Fomos feitos pelo Amor, para o amor, para amar.
Até mesmo uma rocha sem rosto.
Até mesmo os inimigos.
Até mesmo quando isso custa tudo.
